Atualização sobre a situação da bronquite infecciosa nos Estados Unidos - 2007
Mark W. Jackwood, Ph.D.
College of Veterinary Medicine
University of Georgia
Athens, GA 30602
A bronquite infecciosa ocasiona perdas de milhões de dólares à indústria avícola dos Estados Unidos. Assim, a Associação Americana de Patologistas Aviáros continua considerando a bronquite infecciosa como a enfermidade mais importante no que se refere à pesquisa por sua importância para a indústria avícola comercial deste país. A bronquite infecciosa é uma enfermidade do trato respiratório superior das aves, de difícil controle devido aos diferentes tipos do vírus causador e contra os quais pode não haver proteção cruzada. Os diferentes tipos de vacinas vivas do vírus da bronquite infecciosa incluem múltiplos sorotipos e cepas variantes do vírus, os quais emergem devido a mutações e eventos de recombinação do vírus durante sua replicação e adaptação ao hospedeiro.
O vírus da bronquite infecciosa, como a maioria dos RNA vírus, tem uma taxa de mutação extremamente alta, devido ao fato de que a polimerase que copia o genoma viral durante a replicação não tem a capacidade de verificação de erros durante o processo. Isto significa que, se surge um erro durante a copia do genoma, a enzima não o pode corrigir. A alta taxa de mutação permite ao vírus adaptar-se rapidamente em resposta às pressões de seleção assim como às respostas imunes dos hospedeiros (anticorpos e células T).
A melhor estratégia para o controle da doença é o uso de vacinas com vírus atenuados (não – patogênicos). O modo mais comum de realizar a atenuação é por meio de passagens em ovos embrionados. Mediante este processo, o vírus se adapta a multiplicar-se nos ovos, perdendo sua habilidade de causar a enfermidade nas aves e podendo ser utilizado para o desenvolvimento de vacinas efetivas e inócuas. Devido aos diferentes tipos de vírus a campo e à possível falta de proteção cruzada faz-se necessária a produção de diferentes tipos de vacinas.
Os sorotipos mais comuns do vírus da bronquite infecciosa das galinhas nos Estados Unidos são: Arkansas, Connecticut, Delaware e Massachussets. Estes vírus podem sofrer alterações conhecidas como desvios genéticos. Nos vírus de campo do sorotipo Arkansas, esta tendência parece predominar. Se a quantidade de alterações ao longo do tempo se acumula e chega a um ponto crítico, então a vacina do tipo Arkansas (Ark-DPI) já não oferecerá proteção suficiente contra estes novos vírus. Além dos desvios genéticos, podem ocorrer também alterações genéticas dramáticas no vírus, resultando numa nova variante. As variantes do vírus da bronquite infecciosa das galinhas são definidos como tipos virais não conhecidos previamente, os quais são claramente diferentes dos tipos comuns do vírus. As variantes podem surgir rapidamente devido a eventos de recombinação que surgem durante o mecanismo de intercâmbio do padrão ao longo de regiões conservadas do genoma do vírus quando dois vírus diferentes infectam uma mesma célula. Isto resulta em um vírus híbrido, que, sob condições favoráveis, pode atravessar a imunidade induzida pelas vacinas convencionais.
A escolha da melhor vacina é extremamente importante para se obter uma boa proteção contra o vírus da bronquite infecciosa. As vacinas mais comumente utilizadas nos Estados Unidos são as dos tipos Arkansas-DPI, Connecticut, Delaware 072 e Massachussets. A decisão sobre a vacina a ser utilizada depende das informações obtidas por meio de um constante monitoramento dos vírus que circulam a campo. Recentemente publicamos o resultado de 11 anos de isolamento viral assim como dados sobre a identificação do vírus da bronquite infecciosa coletados nos Estados desde julho de 1994 até dezembro de 2004 (Avian Dis. 49: 614-618, 2005). Neste estudo, examinamos um total de 1.511 isolados e ficamos surpreendidos com o fato de que o vírus tenha continuado a evoluir e a causar surtos da enfermidade. O estudo ressalta que isolados relacionados ao tipo Arkansas emergem continuamente a cada ano.
Nossos dados mais recentes de 2005 e 2006 são consistentes a este respeito. Estes isolados relacionados ao tipo Arkansas continuam a causar problemas tanto em frangos quanto em poedeiras. Entretanto, também fica evidente que uma boa vacinação com vacinas do tipo Arkansas (ver Mildvac Ark) protege contra estes vírus até o presente momento. Também encontramos que a cepa Arkansas-DPI é o tipo mais freqüentemente isolado a campo. Não está claro se estes isolados pertencem a isolados de campo ou são isolados de vírus vacinais. Uma vez que é relativamente fácil isolar vírus vacinais, não se sabe porque se estão isolando somente vírus do tipo Arkansas-DPI. Atualmente, este tema está sendo investigado, a fim de explicar a alta freqüência destes isolados nos Estados Unidos.
Em 1989, isolou-se e identificou-se uma variante responsável por causar extensos e severos surtos da enfermidade, sendo designada de GA98 (Georgia 98). Estudos moleculares e de sorotipagem demonstraram que o vírus está relacionado ao sorotipo Delaware. As vacinas convencionais não estavam fornecendo um bom nível de proteção contra este vírus, motivo pelo qual foi desenvolvido recentemente pela Intervet Inc um tipo específico de vacina contra esta variante, a MILDVAC-GA-98. Como vantagem adicional demonstrou-se que a MILDVAC-GA-98 oferece proteção cruzada contra cepas do tipo Delaware. Agora, pela primeira vez, temos a ferramenta necessária para o controle deste tipo devastador do vírus da bronquite infecciosa.
Cepas variantes únicas de presença geográfica restrita vêm sendo relatadas na Califórnia desde 1975. Resultados recentes de nosso laboratório indicam que cepas variantes únicas continuam emergindo e causando problemas em aves na Califórnia. Na década de 90, a variante Califórnia (CAV) foi isolada e identificada. Esta variante é significativamente diferente das vacinas disponíveis e pode causar doença em frangos e matrizes. Isolados da variante CA99 (isolada em 1999) emergem como um grupo isolado, distinto geneticamente e como um novo sorotipo do grupo de isolados CAV. Além disso, três novas variantes isoladas entre 2004 e 2005 se encaixam dentro de sorotipos e grupos moleculares diferentes. Até o momento, estes vírus só foram identificados na Califórnia. Mas, infelizmente, até o momento nenhuma das vacinas existentes é efetiva contra estas variantes.
Tipos variantes do vírus da bronquite infecciosa circulam constantemente no campo e causam surtos periódicos da enfermidade. É importante fazer um constante monitoramento, já que isto nos permite seguir as alterações na incidência e na distribuição destas variantes assim como nos permite identificar e controlar melhor os problemas que estas causam enquanto surgem.
